terça-feira, 19 de março de 2013

Lascas de felicidade

 " É necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisam de motivos nem os desejos de razão.O importante é aproveitar o momento e aprender sua duração, pois a vida está nos olhos de quem saber ver "                                                                    

[Gabriel García Marquez]




Luz. Lua. Brilho. Noite. Esperança. Impulso. Inquietude. Euforia. Sonho. Realidade. Ilusão. Lágrimas. Sorrisos. Pés nas nuvens. Gargalhadas. Realização. E tudo isso em um único dia. Dia que quis esquecer e depois lembrar para sempre. Sentimentos confusos e entrelaçados que podiam ser feitos e desfeitos como uma laço desses de prender o vestido. 

Um barulho irritante vinha da sala. Podia  ser de um secador de cabelo. Não se sabia ao certo, pois tentava incansavelmente silenciar aquele barulho. Jogou as cobertas no chão e levantou contra a vontade de seu corpo. Ainda era cedo. E não queria desperdiçar com pensamentos tristes que lhe faziam sucumbir e roubar sua juventude.
Não era segunda,talvez não era terça. Tentou lembrar que dia era, mas foi em vão. Já não sabia. Antes pelo menos sabia quando era domingo e segunda pois ficava com Lucas. Mas agora que ele vem nos outros dias também. As vezes intercalados e outros não. Já não sabe. Mas sabia que a lua meio pálida ainda estava lá.
Beta ligou o rádio na sala.  Sentiu vontade de gritar " Desliga essa porcaria [tentando ser um pouco educada]" Mas era em vão e depois até gostava da banda. Se jogou na cama e ficou ouvindo. Depois cantando. E pulando. Como se ela nunca tivesse chorado na noite anterior por sentir medo. Medo das coisas que Lucas pede para ela não pensar e ainda sim pensa.
- " chegou a hora de recomeçar
Ter cada coisa em seu lugar
Tentar viver sem recordar jamais "
Repetiu e repetiu. Incansavelmente. Como uma criança que aprende sua primeira música. Pegou sua sapatilha já desgastada e suja e rodopiou. Criou uma coreografia. Ou melhor. Cada vez que repetia a música era uma nova. Não cansava. Seus pés já estavam com bolhas. E mesmo doendo sorria. E sonhava. Desistiu então de planejar. Resolveu sentir. Como é que Lucas disse mesmo : " Quando você dança, você se ilumina, você nasceu pra isso. Seu corpo e seu olhar. A leveza e a presença é notável. Eu amo você dançando, foi assim que me apaixonei por você ".  Então ela tomou seu café e correu para o trabalho.
As ruas lotadas e nem era segunda ou sexta. E ainda sim as pessoas se esbarravam e de repente tudo virou música e tudo virou dança. E então voltou a dançar. De um lado para outro. Desviando. E foi pela rua sorrindo e sorrindo. Parecia essas  enamoradas e por que não ser?
E naquela noite, naquele azul... Ela encontrou seu lugar. E bastou apenas um som. Um toque nas mãos. Um passo Um olhar... Pra ela se sentir viva . Pra sentir uma pequena parte da felicidade.


Outras intensidades

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