quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Passos pela vida.


Não me lembro exatamente como começou o dia, mas lembro de cada pensamento até o seu término. Não que fosse um dia especial. Não era. Era  talvez, só mais um. Mas mudou muitos pensamentos, até além...
Era início de outubro. Chegada a primavera. Mas ainda assim as ruas tinham um tom de cinza. Os rostos rígidos, as calçadas sujas, a linha do trem, o barulho da cidade grande que não para um segundo para respirar... um pouco de tudo. Ou um pouco do nada. Faltava uma uma cor. Faltavam muitas cores. Senti saudades do portão azul. Do sofá verde na sala. Da parede que desenhei. Das flores no quintal. Das tardes em que andava de bicicleta. Das conversas no portão. Dos sorrisos pelas ruas. Saudades.
O sol queimava com toda sua força, para esquentar o dia. Minhas pernas doíam de subir a rampa gigante com pressa. Já beirava meio dia e Alice me esperava para almoçar. No mp4 tocava as mesmas músicas de sempre, mas que ainda emocionavam. O trem  se aproximava ,tinha as cores lindas, seu barulho chamava a atenção. As pessoas penduradas na porta também, mas isso já virou rotina Continuei com os passos apertados quando tomei um susto.  Alguém tentava guardar alguns jornais que estavam espalhados no chão em sua bolsa. Mas não conseguia. Começou a bater o pé ( como uma criança pirracenta) e socar para todos os lados. Veio para cima de mim. Quando notei sua mão estava perto do meu rosto. Fiquei paralisada. Meu corpo tremia, não sabia o que fazer. Aqueles olhos com raiva me encararam e se tornaram tristes. Ele abaixou sua mão e sua cabeça como se sentisse vergonha. Não se exatamente o que sentiu. Virou as costas e sentou no chão com a cabeça ainda baixa. 
Segui com os passos vacilantes e algumas lágrimas nos olhos. Não pelo susto, mas por aqueles olhos tristes. Não conseguia esquecer. Quando Alice me viu, veio correndo e me abraçou forte. Queria ficar ali pra sempre. Ela secou minhas lágrimas e segurou minha mão. Tentei ligar para Lucas, mas não consegui e isso já é outra história. Voltamos tinha que passar pelo mesmo lugar e ele continuava lá, sentado no chão. Pensei em falar com ele, mas não sabia o que. Continuei andando... De repente alguém me puxou pelo braço. Tomei outro susto. Era ele. Ele. Me pediu desculpa e disse que nunca iria me machucar. E chorou. Eu sorri e continuei a conversar com ele. Alice também. Seu nome era  Roberto e era de Minas. Lhe paguei um lanche e depois ele se despediu, agora com um sorriso, mas ainda com as marcas do cansaço da vida. 
Passei várias vezes depois por ali. Mas nunca mais vi Roberto. Nem o seu cantinho com os jornais empilhados. Dizem que ele se mudou, outros que ele morreu, outros dizem nunca terem o visto. Mas ainda sim posso ver Roberto e seu sorriso ao se despedir.

Outras intensidades

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