segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Aqueles lábios vermelhos.


Noite em claro. Os olhos ainda estavam inchados pelas lágrimas derramadas. Também chovia. Mas a tempestade vinha de dentro. Seus sonhos estavam presos. Assim como sua felicidade. Se via presa a um passado. Queria uma mudança. Queria um motivo para continuar.
O tempo não mudava e já havia derramado a última gota da garrafa de vinho. Suas lágrimas cessaram por um instante.Como se uma raiva invadisse sua alma e a tornasse fria. Mas por inteiro. Pegou uma caixa estampada com as fotos amareladas do verão passado e espalhou pelo chão. Pisou. Dançou. Riu bem alto. Se jogou de joelhos. Deitou sobre elas e lembrou do céu azul, o mar, os dois... e as lágrimas brotaram novamente. Pegou correndo o isqueiro e acendeu. Ficou por alguns segundos olhando aquela chama que realçava as lágrimas que borravam o lápis preto dos olhos. Pegou um papel vermelho dobrado em várias partes e começou a queimar. Não quis saber o que era. E assim foi queimando cada recordação. Cada uma que lhe fazia rir e depois chorar. E que doía. Eram com certeza as mais doloridas.
Sentada no canto, sentia frio. Seus olhos continuavam presos naquela chama, que agora era maior. E tudo se resumia a cinzas. Juntou tudo com cuidado e bem devagar, pois sua cabeça ainda doída. Abriu a janela, e soprou com o pouco de força que lhe restava as cinzas. E desejou com muita vontade que da mesma forma como o vento levava as cinzas, levasse suas dores.
Colocou um vestido claro e uma fita no cabelo quase negro. Uma meia até o meio da coxa e um sapato alto. Na mala estava só o que era necessário. A estação estava lotada e seus óculos escuros impedia que percebessem aqueles olhos negros inchados. Sentada no último vagão do trem, sentia seu cabelo sendo acariciados pelo vento. Sentiu um leve sabor de liberdade. Pegou um pequeno espelho na bolsa e passou um batom. Seus lábios agora tinham uma cor vibrante. Podia se dizer quase cereja.
Aos poucos começava a sonhar. E quando voltava a realidade, seu lápis deslizava sobre o caderno em cima da mesa. Se sentia feliz, mesmo que dentro dela ainda houvesse feridas que sangravam. Tudo que sabia era que iria tentar recomeçar e com isso seu coração vibrava. Mas o que não sabia, era que no banco ao lado havia alguém que tentava decifrar aqueles lábios vermelhos e gestos tão doces. Os mesmos lábios que a pouco sentia o gosto salgado das lágrimas e agora fazia-se abrigo de sorrisos.

Outras intensidades

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