quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Só queria que não fosse mais igual.


 O relógio teimava em ecoar pelo quarto. O sol atravessava as cortinas. Não queria levantar. Queria voltar a sonhar. Jogou o travesseiro sobre o rosto e o abraçou bem forte também. Gritou. Levantou-se e escolheu um dos vestidos que mais gostava. Queria estar bonita. Tinha passado os dias triste demais. As malas estavam atrás da porta. Havia deixado aquelas lembranças felizes, mas que também sangravam. As fotos já não estavam na parede. Estavam na mesa perto da janela, junto com alguns livros, CDs, cartas e uma flor. Coisas sem importância. Nunca eram. Na gaveta ainda estava a fita de cetim que adorava e enfeitou seu cabelo. Nos olhos ainda molhados pintou com lápis preto e nos lábios uma leve camada de vermelho. Ficou se olhando no espelho. Rabiscou  -  " [ ...] não pensa que eu fui por não te amar. "
Tudo estava ali. Chorou. Não por ser fraca. Não era isso. Era por saber que não sentia ódio, raiva ou qualquer coisa do tipo. E também não conseguia dizer adeus. E ela tentou por muitas vezes. Mas não conseguia deixar o que tanto amava para trás, mas também sabia que nem tudo que se gosta faz sorrir. Não fazia mal. Lhe fazia chorar[as vezes]. E aceitava porque os momentos que eram felizes lhe fazia esquecer o resto. Mas só estava cansada das tempestades.
Na sala seu pai esperava para irem comprar as passagens. Sua mãe chorava na cozinha. Ela também chorava. No outro quarto suas meninas brincavam e sorriam. Sentou se ao lado delas e contou algo sobre elfos e dragões. E ficaram ali por algum tempo. Esqueceu da hora. Na sala alguém gritou seu nome. Correu para ver o que havia acontecido. Sua mãe sussurrou -  " é José " - Segurou o telefone e respirou fundo. Ficou muda. Não sabia o que falar, até sabia mas não conseguia.
- Oi! Você ta aí? ... fala comigo.
- Oi!
- Você ta bem?
- hum hum... e você?
- normal. Já te falei sobre isso. Vamos sair?
- É... hoje não da. Fica bem...bem...vou sentir saudades gatinho. A...Ad...Até...Te ligo quando chegar. Beijinhos.
- Espera aí. Que aconteceu? Que vai fazer? Me fala...me fala...[ tutututututu - ao fundo só o sinal de ocupado].
Por um minuto Ana pensou em desistir. Mas também pensou que se queria  fazer dar certo precisava ficar bem. Se sentir bem. Quem sabe sorrir um pouco? Não isso já era demais. Não tinha certeza mais de nada. Só que queria correr para vê-lo. Mas seria igual. Tudo igual. E isso não queria mais. Só queria fosse um pouco diferente.

Outras intensidades

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